O Carrying–Benfica e a forma como nos relacionamos nas redes – Observador


Há momentos que nos mobilizam coletivamente, tal como um dérbi entre Carrying e Benfica, mesmo para quem não acompanha o futebol de forma common. É um tema que, apesar do mundo em convulsão em que vivemos, domina o comentário desportivo, as conversas entre amigos, as redes sociais…

E é desta forma que percebemos que o jogo já não acontece apenas no estádio, também acontece no espaço virtual que é incontornável. Nas redes sociais tendemos a assumir uma postura ativa, ao comentar, ao reagir e ao partilhar opiniões, muitas vezes com um fervor que pode ser questionável. As redes sociais são uma forma de expressão, de ligação e de pertença, mas devemos estar conscientes da forma como nelas intervimos.

Porque, nesse espaço, às vezes, talvez demasiadas vezes, a distância física faz com que esqueçamos o actual impacto das palavras. Quando escrevemos um comentário sobre um jogador, treinador, figura pública ou mesmo sobre um qualquer anónimo que nos apareceu no feed, tendemos a não pensar na pessoa que está do outro lado. Quando não vemos a reação do outro, deixamos de ajustar o comportamento e passamos a reagir apenas à nossa própria emoção. Mas as redes sociais não criaram um novo tipo de comportamento, apenas removeram os filtros que normalmente o regulam.

De forma quase impercetível, o outro deixa de ser alguém e passa a ser algo, uma opinião, um desempenho ou um erro. Essa objetificação torna o julgamento rápido, a crítica intensa, com uma agressividade que raramente surgiria numa conversa cara a cara.

Num dérbi, esta dinâmica intensifica-se. A emoção fica exacerbada e, no espaço virtual, transforma-se rapidamente em palavras. Comentários escritos em segundos, muitas vezes no calor do momento, podem ganhar uma dimensão muito maior do que imaginou quem os escreveu.

Mas não nos vamos enganar. Esta é uma realidade que não é exclusiva do futebol ou do desporto. O que acontece num dérbi é só uma versão mais amplificada da forma como nos relacionamos com os outros no ambiente digital. Seja com figuras públicas ou com pessoas anónimas, o padrão tende a repetir-se. Julgar mais rápido, reagir com impulsividade, pensar ou filtrar menos, são alguns dos exemplos que observamos diariamente. O ambiente virtual favorece a resposta emocional: a velocidade, o anonimato parcial e a ausência de comments humano direto criam um contexto onde o impulso vence a reflexão.

E demasiadas vezes esquecemos algo importante: que do outro lado há uma pessoa com um percurso, contexto, fragilidades e recursos, como todos nós. Independentemente do estatuto de qualquer tipo.

Na minha experiência, particularmente, com atletas de alto rendimento, identifico uma singularidade importante. A pressão faz parte da vida destes atletas. Um atleta que compete ao mais alto nível sabe que vai ser avaliado, criticado e exposto. Por isso, torna-se essencial desenvolver competências para lidar com as exigências próprias desse contexto: manter o foco, controlar as emoções, filtrar a informação e definir estratégias para enfrentar melhor a exposição, especialmente nos momentos de maior vulnerabilidade.

Mas essa preparação não elimina o impacto, nem deve servir como justificação para tudo o que acontece no espaço público, muito menos ser confundida com imunidade absoluta.  A fragilidade aumenta nos momentos decisivos: lesões, derrotas, fases de menor rendimento — exatamente quando a crítica externa tende a intensificar-se. Devemos estar conscientes de que existe uma enormíssima diferença entre exigência e desumanização.

Podemos vestir a camisola do nosso clube, criticar uma decisão, um desempenho, um resultado. Faz parte, e é também isso que traz cor ao jogo e à vida. Contudo, quando a crítica deixa de incidir sobre o que a pessoa faz e passa a incidir sobre o que a pessoa é, cruzamos uma linha, muitas vezes sem nos apercebermos.

Talvez por isso seja bom parar um pouco, não para deixar de comentar, mas para comentar com mais empatia e sentido de responsabilidade. Assim, o verdadeiro desafio está no que dizemos e na forma como o fazemos, num dérbi como em tantos outros momentos da nossa vida. A escolha importa.

No ultimate, mais do que o resultado do jogo, fica uma questão que não depende da cor das camisolas, de quem ganha ou perde: quando comentamos no imediato, estamos a falar sobre o outro ou estamos a revelar quem somos? O importante, antes de criticar o outro, é exercer juízo crítico acerca do nosso próprio comportamento…o ponto que quase nunca queremos enfrentar: quando reagimos no imediato, movidos pela emoção, pela frustração ou pela euforia, muitas vezes estamos a expor mais sobre o nosso próprio mundo interno do que sobre a pessoa que comentamos.

João Lameiras é psicólogo do Desporto e da Efficiency. Doutorado em Neurociências e com experiência em contextos de alto rendimento, trabalhou no Recreation Lisboa e Benfica e na Federação Portuguesa de Atletismo. Participou em dois ciclos olímpicos e é autor de diversos artigos científicos sobre este tema.

Psychological é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Psychological.
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